Sabores do vovô
Lembranças possuem sabor! Sabor gostoso que enche minha boca e chego até a salivar, imaginando como seria prová-las novamente. Meu avô era assim, tinha sabor de tutti-fruti e as vezes bala puxa-puxa. Sempre a chupar uma balinha e quando pedia uma a resposta era a mesma: “- esta era a última! Toma o dinheiro, vá comprar uma para você”. Em seu bolso havia sempre balas.
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Quando eu ficava e parada na escada, pensando em meu pai, lá vinha ele sentar-se ao meu lado. Este momento, tão mágico, tinha sabor de afeto. Colocava-me em seu colo a cantarolar músicas que me faziam sorrir, expressando seu amor. Correr, pular e rolar no chão não fazia parte de seu repertório, mas com um simples olhar transmitia o seu pensar. Calado e observador era capaz de pressentir quando me vinha a dor, e desde pequena convivi com esse doce olhar.
Ao pegar-me fazendo algo errado, sua voz entoava: “- onde está a mãe desta criança que não está vendo isto?” Murmurar sim, esbravejar, jamais! E logo em seguida declamava um poema, o qual não me atrevo a escrever, e ao perceber os passos de minha mãe, rapidamente mandava-me comprar algo. Protegia-me até ao murmurar, com um sorriso do lado, bem maroto, próprio dos avôs.
À noite, antes de dormir, tomava seu banho e percorria a sala com os cabelos prateados e molhados, arrastando seus chinelos e com aquele pijama salmão. Esse pijama o imortalizou com o apelido de “a pantera cor de rosa”. Jamais o chamávamos assim; acho que no fundo ele sabia que tinha este apelido, e como todo avô fingia que nada acontecia.
Alguns finais de semana, quando a família se reunia, íamos pescar na usina Santa Rosa, uma represa magnífica. Uma pequena represa – não iluminava nem um pequeno bairro da cidade – sua magnitude não estava em seu tamanho, ou na energia que gerava e sim nas lembranças em mim deixadas. Pois ainda vejo meu avô lá embaixo procurando um lugar para acomodar-se e com sua varinha e num profundo silêncio ficava a pescar. Ai de quem os pés naquela água molhasse, rapidamente ouvia o velho a murmurar bem baixinho: “-psiu! Vai espantar os peixes!”
Ah, doce sabor que senti e não sentirei mais, pois esse era sem par, não há outro igual.Vaidoso, alto, bonito e cheiroso, com sua calça de linho e um chapéu na mão lá ia meu avô, parecia um puro-sangue de tão imponente, resolver seus assuntos na rua. Ao voltar, guardava o chapéu e algo ia fazer.
Havia um degrau da casa, e ele só sentava ali quando ia preparar o material para empalhar cadeiras. Nada ganhava com isso; empalhava para os amigos só para passar o tempo. Quando lá estava, com um canivete nas mãos e pequenos pedaços de madeira, logo perguntava: “- vô o senhor vai fazer palhinha?” Prontamente respondia: “- vou sim Lili”. Como já disse, era calado e observador, não falava muito. É por isso que as lembranças que tenho dele são saborosas, não eram palavras que iam com o vento, mas expressões de puro amor; e essas marcaram minha vida. Muitas e muitas vezes passávamos o tempo juntinhos, sem falar muito para não atrapalhá-lo, só ajudando no que me pedia. Acho que sou capaz de empalhar uma cadeira só de lembrar os movimentos das mãos de meu avô trançando a palha e manuseando as estacas. Pude desfrutar de tempo ao seu lado e sentir esse olhar que me abraçava com um leve sorriso do lado, bem maroto, próprio dos avôs.
Delícias da vida, tão vivas e saborosas, doces e afetuosas que pude saboreá-las em uma única pessoa; devotou-me tanto amor que refrescou a minha imensa dor. Sinto saudades desses sabores, daquelas mãos enrugadas trabalhando por puro prazer, do murmuro fajuto, do silêncio.
Pena que os avôs duram pouco, mal crescemos e já os perdemos seja para a morte, ou para as conseqüências da velhice, nós os perdemos e ficam apenas as lembranças, as doces e saborosas lembranças que a vida nos permite guardar. Proporcionando-nos alegrias que de quando em quanto brotam fazendo-nos ver o quanto é bom viver.
Elisa de Mello Kerr Azevedo – 2004.
18 Agosto, 2008 às 21:52 |
Elisa…desculpe achei seu depoimento por acaso… este sentimento pelo seu avô…me fez lembrar dos meus avós e tb do carinha que minha mãe tinha pelos meus filhos, que a teem assim como vc…pertinho do coração mesmo estando com o Papai do Céu…
Desculpe mas vc me fez chorar… de saudades…
Beijos Linda.
Celina
16 Julho, 2007 às 18:24 |
Tambem ainda me lembro do “Velho Magioli” cheirando meus braços para saber se eu havia tomado banho. Na verdade havia apenas lavado os braços. Ele sabia, mas o que importava isto.Importava apenas a minha felicidade.
Saudades meu avo.
13 Julho, 2007 às 3:47 |
Lili_Elisa.
Fui virando um poça d’água a medida que lia…
Vera e Rodrigo (estavam em casa) me acuiram para sair da forma líquida…
Por coincidência estou fazendo um pequeno trabalho onde tentava esboçar uma cadeira de balanço e a imagem do “seu Vô” estava o tempo todo comigo.Quando passei pela foto dele na cadeira de balanço faltou ar…
Como você foi feliz!
Deus a abençoe.
11 Julho, 2007 às 5:30 |
Tú sempre foi danadinha, mas agora se superou.
Ao sentir os sabores do vô, deu-me uma enorme vontade de fazer um vídeo. Seu relato além de saboroso desmente a máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”.
É só ler seu texto que vejo o filme do vô andando … cabelos prateados e molhados, arrastando seus chinelos e com aquele pijama salmão …
Fico com medo dele vir puxar me pé. Ficou uma fera, sempre sob controle e sem elevar a voz, quando deixei seu canivete cair no mar em Coroa Grande.
Voce reviveu lembranças valiosíssimas.
Parabens minha querida danadinha!
10 Julho, 2007 às 19:18 |
Tia Lili,
Lembro-me bem do vô fazendo suspiros, todos os dias, para a Monique. Lembro do cachorro que o tio trouxe da Bahia para guardar a casa e que o ladrão robou. O ladrão tinha bom gosto, aquele cachorro era lindo! Muitas coisas importantes não escrevi, mas estão bem guardadas comigo. Todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com ele temos lembranças maravilhosas para compartilharmos.
Um abraço,
Elisa Mello Kerr
10 Julho, 2007 às 17:52 |
Elisa,
Fiquei muito feliz em saber que você também guarda estas lindas recordações do nosso mui querido vovô Walter. Eu também o amava muito e guardo no fundo do meu coração as mais belas lembranças e sou muito grata por todo o bem que ele nos fez. Esta semana ainda comentei com a Cida (minha nora), que eu o amava demais e tenho presente no meu coração o carinho que ele nos dedicava. Tem um fato que faço questão de contar: quando as crianças eram pequenas e morávamos em Valença, eles tiveram hepatite – na época a coisa estava muito difícil para nos e ele ia, todos os dias, levar suspiro e goiabada, mas no fundo da bolsa tinha sempre us bifinhos ou um frango e ele dizia: passei na Merval e trouxe isto para vocês. Existe alguma maneira mais sutil de ajudar? Jamais nos o esqueceremos. Parabéns, Elisa, por você ter tido esta feliz idéia. Obrigada em nome de toda a minha família.
Lili
10 Julho, 2007 às 15:55 |
Parabéns Elisa, que lindo.
Revi tio Walter.
Só quem o conheceu pode perceber as delícias de um ser humano dadivoso.
Você conseguiu, através de suas palavras,trazer novamente tio Walter a nossos corações.
Lindo…lindo…lindo.
Fátima H. Araújo
9 Julho, 2007 às 14:25 |
Elisa
Só me vem a cabeça isso:
MUITO OBRIGADO MEU AMOR.
Estou chorando.
Zé
8 Julho, 2007 às 2:08 |
Pude sentir o sabor doce das coisas que descreveu, de tudo isto tambem vivi.
Ah! Que Saudade !
Felizes somos nos que temos este sabor no coracao.
Um beijo e parabens Elisa.
Monique
7 Julho, 2007 às 17:43 |
É Lili, você arrebentou e que saudades do Vô.
Como nós eramos felizes e não sabiamos!
Beijos, seu Irmão.
6 Julho, 2007 às 21:32 |
Nossa que emoção, achei essa preciosidade por acaso.Você me emocionou muito sua danada. Bjs, tia Lúcia
7 Junho, 2007 às 5:52 |
1. prof.Dinéia Hhypolitto Disse:
Maio 8th, 2007 at 7:31 am e
Elisa que emoção ao ler este post. Você me fez relembrar a miha querida avó, pois eu não tive a mesma sorte que você, que pode vivenciar os sabores afetivos ao lado do vovô. Eu não conheci os meus avôs,porém a minha avò foi tudo de bom na minha vida e conseguiu suprir os avôsEla foi uma mulher forte, dinâmica, batalhadora e muito amorosa. Que sabor de saudades … Grata . Abraços Prof. Dinéia