A Arte realizando sonhos

Estou publicando um dos capítulos do Trabalho de Conclusão de Curso que pesquisei este ano (2007) no curso de Pedagogia da USJT. Nele, faço um relato sobre dois participantes do projeto “A Arte de Encadernar”, e como esse projeto têm transformando suas vidas.

Este projeto tem como foco a preservação do meio cultural e, conseqüentemente, a mudança da realidade dos participantes, tendo dois objetivos: ensinar as técnicas da encadernação básica e os com conceitos de conservação de livros sem saber se esse último objetivo seria alcançado. Contudo, não perdi de vista esse conceitos que poderiam vir a ser futuramente o grande diferencial dos profissionais que passam pelo projeto, ao se lançarem no mercado de trabalho em bibliotecas, ou mesmo ao buscar o aprimoramento e ultrapassar as fronteiras da encadernação básica.Esses dois participantes já ingressaram no projeto com algumas técnicas de encadernação aprendidas no passado e mesmo sem se conhecerem compartilhavam do mesmo sonho: ser encadernador. Porém, as informações trazidas por eles eram erradas e até mesmo prejudiciais ao livro. No momento em que detectei essas informações, busquei na teoria de Rogers (1997, p. 322) a justificativa para promover a mudança de atitude dos participantes por meio da aprendizagem significativa, pois esta é definitiva e contempla a sua totalidade, provocando a transformação interna desse ser, quando ele diz: Por aprendizagem significativa entendo aquela que provoca uma modificação, quer seja no comportamento do indivíduo, na orientação da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua personalidade.

Eles tinham muitas dúvidas sobre os procedimentos corretos a serem adotados e constantemente questionavam minhas ações, embora o fizesse com respeito aos meus conhecimentos, comparando com suas vivências. Percebi que precisava de auxílio para comprovar minha experiência e vivência profissional. Na área de encadernação, conservação e restauração a bibliografia brasileira é restrita e na universidade não temos quase nenhuma fonte de pesquisa. Então busquei auxílio nas novas tecnologias e resolvi montar um blog para articular a prática com a teoria e ampliar seus horizontes, assegurando a fidedignidade de meus conhecimentos.


Uma das grandes dificuldades que encontrei ao abordar a tecnologia foi filtrar informações fidedignas. Na verdade encontrei muitas internautas dando palpites sobre conservação e poucos artigos são escritos por profissionais especializados nessa arte e fieis aos conceitos de preservação do documento gráfico. Precisei abri o meu olhar e ser flexível e aberta a novas abordagens que tornassem o projeto interdisciplinar[1] para promover a confiança dos participantes. Rocha (2007) explica que Baseados numa nova atitude, esses projetos objetivam uma postura integrada das disciplinas com os diversos saberes das suas áreas de conhecimento, possibilitando a pesquisa e a percepção das relações existentes entre as diferentes abordagens. No entanto, informações que publiquei articulando com os artigos selecionados de associações e museus, previamente pesquisados, já foram o suficiente para que adquirirem total confiança em meus conhecimentos e se libertarem dos erros que já cometeram.
O que mais me surpreendeu com esses dois alunos foi à mudança do olhar repentinamente para o trabalho artístico da encadernação. Absorvendo cada dia mais as relevâncias dos conceitos de conservação articulados com as técnicas dessa arte. Um olhar voltado para a importância aplicarem critérios bem definidos sobre esses conceitos para a preservação de nossa cultura escrita, para além das técnicas de encadernação. Ao entrarem para o projeto, tinham apenas a intenção de abrirem uma encadernadora de livros comercial. O olhar para os livros deixou de ser apenas de um objeto material e estático para ser um objeto que interage com as pessoas e reagi às condições ambientais, o que o torna frágil e delicadamente suscetível as mudanças climáticas.

O contato com esse conhecimento despertou nesses sujeitos o desejo de aprimoramento na área. Seus objetivos mudam por completo. Hoje sentem- se capazes de ir além do que já conhecem, pois já são capazes de executar a encadernação simples sem a minha presença. Essa mudança de atitude, com vistas os conceitos já incorporados, tem lhes proporcionado segurança profissional e desejo em seguir aprimorando o conhecimento teórico e prático.

Atitudes de busca de alternativas para conhecer mais e melhor; atitudes de espera perante atos não-consolidados; […] atitude de humildade diante a limitação do próprio saber; […] atitude de perplexidade ante a possibilidade desvendar novos saberes; atitude de desafio diante do novo;atitude, pois, de compromisso de construir sempre da melhor forma possível. (FAZENDA 1991, p.20).


Essa mudança de atitude é evidenciada quando esses participantes perplexos diante do conteúdo que assimilaram em pouco tempo foram capazes de transmitir confiança a outras pessoas e trouxeram para o projeto livros de clientes, que muitas vezes apresentam problemas que vão além das técnicas contidas no programa do curso. São nesses momentos que realizamos uma grande troca de experiências. Pois antes mesmo de efetuar o meu diagnosticar sobre os procedimentos a serem adotados nesses livros, eu os questiono para que reflitam e perguntem ao próprio livro o que e como proceder com o livro. A minha grande satisfação no projeto é perceber que esses alunos estão aptos a escutar e diagnosticar alguns dos procedimentos corretamente. E se for preciso que eu defina o que deverá ser feito, o faço com imensa satisfação, pois esses momentos são riquíssimos para que todos aprendam e percebo o quanto foram capazes de transformar os conhecimentos que adquiriram até esse momento.
Todo educador consciente de suas atribuições, tem por aspiração despertar em seus alunos o desejo de buscar a autonomia com responsabilidade. Essa foi uma das minhas expectativas e tem me emocionado no decorrer do projeto, pois meus alunos estão cada dia mais livres para aprender sozinhos.

Os projetos que se centram na cidadania focam a mudança e culminam na formação de cidadãos plenos e conscientes de seus direitos e deveres. Assim, eles podem colaborar para a construção da criticidade e da percepção das expectativas dos sujeitos, contribuindo para o desenvolvimento social, cultural e econômico da comunidade. ROCHA (2007, p. 67)

Em pouco tempo os pensamentos já se transformaram, os participantes estão refletindo sobre suas pretensões futuras e buscam a mudança de suas realidades em cooperação com o patrimônio cultural. Percebo a contribuição do projeto para a conscientização dos participantes da importância da preservação em favor dessa memória cultural no exercício da cidadania na mudança de suas realidades econômica. Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nas tornamos capazes de aprender. Por isso somos os únicos em que aprender á uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito (FREIRE, 1996, p. 69). Esses dois alunos já estão adquirindo alguns equipamentos que possibilitem a realização de parte do trabalho em seus domicílios. O projeto começa a formar pessoas autônomas e conscientes de suas capacidades de aprendizagem contínua.

É esta percepção do homem e da mulher como seres programados, mas para aprender e, portanto, para ensinar, para conhecer, para investir, que faz entender a prática educativa como um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia (FREIRE, 1996, p. 64).

Também, estão conscientes de que podem trabalhar como encadernadores ou mesmo com produtos de decoração, que para sua confecção fazem uso de algumas técnicas da encadernação.


Esses dois participantes já trazem para a sala de aula livros de clientes. E pendem minha ajuda para solucionar problemas que estão além das técnicas contidas no programa do curso. O que faço com imensa satisfação, pois esse é um dos momentos que percebo o quanto posso despertar a curiosidade desses alunos e ao indagar seus conhecimentos levando-os a perceber suas capazes de transportar os conhecimentos que adquiriram até o presente momento.

Antes de qualquer tentativa de discussão de técnicas, de materiais, de métodos para uma aula dinâmica assim, é preciso, indispensavelmente mesmo, que o professor se ache repousado no saber de que a pedra fundamental é a curiosidade do ser humano. É ela que faz perguntar, conhecer, atuar, mais perguntar, re-conhecer (FREIRE 1996, p. 86)


Esse projeto tem mostrado sua eficácia na mudança de atitude dos sujeitos dessa pesquisa, ao se sentirem capazes de trazer para o projeto livros, de terceiros, para ser encadernado sob meu olhar.


A arte de encadernar livros, após aprenderem sobre a relevância dos conceitos de restauração desse patrimônio, tem realmente, transformando a vida desses alunos. Hoje, após aprenderem que o trabalho do encadernador não é simplesmente um simples ato de pôr uma simples capa no livro, envolve muito estudo e aprimoramento técnico. E após atribuírem significado a essa técnica, compreenderam que podem ir além e são capazes de tornarem-se profissionais. É unânime o desejo de tornarem-se cidadãos reconhecidos como restauradores. Já estão em busca desse mercado e de suas realizações pessoais e profissionais ao perceberem que seus sonhos estão começando a se realizar; o que antes lhes parecia impossível de ser alcançado.


[1]Considerando-se interdisciplinaridade como atitude a ser assumida no sentido de alterar os hábitos já estabelecidos na compreensão do conhecimento, na mudança em que implica a interdisciplinaridade no que se refere aos aspectos pedagógicos. (FAZENDA, 1993, p.20)

Atualmente sete de meus alunos já estão atuando na área de encadernação.

Bibliografia

ARANTES, Antônio Augusto (1984). Estratégia de construção do patrimônio cultural / Produzindo o Passado. São Paulo: Brasiliense.

BEYER, Hugo Otto (2005). Inclusão e avaliação na escola de alunos com necessidades educacionais especiais. Porto Alegre: Mediação.

BOGDAN, Roberto C. e BIKLEN, Sari Knopp (1994). Investigação qualitativa em educação uma introdução à teoria e aos métodos. Porto – Portugal : Porto Editora.

CHIZZOTTI, Antônio (2000). Pesquisa em ciências humanas e sociais. 4ª ed. São Paulo: Cortez.

CHOAY, Françoise (2000). A alegoria do patrimônio. Lisboa: Edições 70.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (1991). Interdisciplinaridade: um projeto em parceria. São Paulo: Loyola.

FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.

FUSARI, M. Felisminda de Resende e, FERRAZ, M. Heloisa Corrêa de Toledo (1993). A arte na educação escolar. São Paulo: Cortez.

GAYOTTO, Maria Leonor C. (Org.) (2003). Liderança H: aprenda a coordenar grupos. Petrópolis, RJ: Vozes.

INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS (2001). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.

PERRENOUD, Philippe (2000). Dez novas competências para ensinar / Philippe Perrenoud. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.

ROGERS, Calrs. Liberdade de aprender em nossa década. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

_____________. Tornar-se pessoa. Trad. Manuel J. C. Ferreira, 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

SÃO PAULO (SP). DEPARTAMENTO DO PATRIMONIO HISTORICO (1992). O direito a memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo, SP: O Departamento.

SEVERINO, Antônio Joaquim (2000). Metodologia do trabalho científico – Antônio Joaquim Severino. 21ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Cortez.

EDUCAÇÃO PÚBLICA – BIBLIOTECA DIGITAL. Artigo produzido por ALMEIDA, Maria Elisabeth Bianconcini. Disponível em <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/educ30.htm&gt; acessado em 20 d agosto de 2007.

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7 Respostas to “A Arte realizando sonhos”

  1. Dircelene Alonso Rocha Says:

    Oi, entrar e poder observar seu trabalho foi muito gratificante. Obrigada. DIRCELENE.

  2. Elisa Kerr Says:

    Oi Larissa,

    Faz o seguinte, você tem que terminar um livro, então venha na segunda feira antes da formatura.

    Um abraço

  3. Larissa Says:

    OI Elisa,
    então… não pude comparecer ontem (quinta-feira) no curso, como faço para pegar o certificado e meu livro que ficou… vai ter algum outro encontro… grande beijo parabéns pelo blog… i quero uma foto minha ai no seu blog tambem

  4. Thiago Says:

    Oi tia,

    Seu blog está de parabéns! De vez em quando eu dou uma passada aqui pra ver (mesmo eu não sendo um dos melhores pra conservar as coisas).
    Que cada dia mais pessoas possam conhecer seu blog, que por sinal está cheio de conteúdo.

    Do seu sobrinho preferido que está muito orgulhoso,
    Thiago

  5. prof. Eli Bendito Says:

    Olá Elisa gostei muito desse capítulio de seu TCC, e posso afirmar por experiência própria enquanto Eduacadora Recreacionista que fui na Rede Municipal de São Paulo que a Arte realiza muitos sonhos, e nos mais diversos campos. Vi muitos trabalhos nessa área dar trabalho no 3 setor para muitas mães e pais desempregados. Vá em vfrente e continue com esse projeto maravilhoso , pois você está no caminho certo. Gostaria também de parabenizar a coordenadora do projeto Dinéia Hypolitto que acredita muito no seu trabalho. Parabenizo-as pelo sucesso e sua incessante garra . Abraços. Prof. ELI

  6. Prof. Lenita C. De Almeida Says:

    Olá Prof. Elisa não poderia deixar de parabenizá-la mais uma vez. Gostei muito do enfoque do seu TCC , pois sou apaixonada pelo tema preservação cultural e artística. O meu lado artístico é muito forte, e ás vezes posso liberar por meio da música, pois sou pianista também. Atualmente faço alguns trabalhos na área de artesanato , e já pesquisei muito no seu blog por conta das capas que você postou aqui e outros temas também , como por exemplo o Portfólio.. Grata pelas dicas. Abraços e sucesso. Prof. Lenita C. de Almeida

  7. Prof. Dineia Hypolitto Says:

    Cara professora Elisa devo concordar que transformou sim a vida desses alunos, pois acompanhei de perto a evolução dos mesmos durante o projeto. Este sucesso foi graças ao seu esforço, dedicaçao e brilhante desempenho do seu trabalho junto aos alunos.Parabéns! Dinéia HypolittoCoordenadora do CEAM- CENTRO EDUCACIONAL PROF. ALZIRA ALTENFELDER SIVA MESQUITA- Uiversidade Sâo Judas Tadeu

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