O encantamento da banda musical

Os jovens costumam ignorar o conhecimento e gosto dos mais velhos. Fiz isso tantas vezes e me arrependo muito por não ter me aculturado das coisas que meus antepassados cultivaram. Não valorizei a memória cultural de meus avós e deixei o tempo passar, talvez imaginando que eles fossem imortais e que a qualquer momento estariam ao meu lado, para me contar o que eu quisesse saber.

Meus avós gostavam muito de banda. Sempre que a banda da cidade passava pelas ruas escutavam-se as vozes dos dois chamando: “Elisa, Raimundo, Lúcia, Nancy, venham rápido, a banda vai passar!” Eu logo lembrava de Chico Buarque cantando “A Banda”. Que pena! Não valorizei esses momentos mágicos e o encantamento que meus avós viviam cada vez que a banda passava. Eu pensava que eles gostavam da banda apenas por gostar de música!.

Só pude compreender a relevância da memória familiar quando precisei escrever sobre minhas memórias. Meus avós estiveram presentes em grande parte de minha vida, e sua presença é muito significativa para mim. O engraçado é que eles se interessavam por cada momento de minha vida, mas, no entanto, como muitos jovens, o que realmente me interessava era a minha própria vida! E, por isso, deixei passar momentos preciosos de aprofundamento familiar, dos interesses pessoais dos meus “velhinhos” e assim compreendê-los melhor.

No ano passado, mais uma vez, tive a oportunidade de perceber minha cegueira juvenil. Precisei ir à casa deles, em Valença (RJ), antes de ser vendida. Lá reencontrei a Ana Maria, que serve a minha família desde 1971. Ela ficou morando na mesma casa de meus avós, aquela em que eu vivi preciosos momentos ao lado deles. Ao me ver entrando na casa, ela abrir um belo sorriso – o que não é novidade para quem conhece a Ana, ela ri o tempo todo – e foi logo me bombardeando de perguntas do tipo : O que eu faço com isso? E aquilo? E esse gravador velho de seu “Walti”, o que faço com ele? A D. Iracema escutava sempre essa fita depois que seu “Walti” morreu.

Opa, que estranho! Porque minha avó escutaria repetitivamente aquela fita? Na pressa, pois estava só de passagem (e ciente que não teria como escutar aquela velha fita K7 em minha casa), resolvi trazer o velho gravador também. Assim, ao chegar em São Paulo poderia ouvi-la logo. É claro que o bendito do gravador não funcionou! Tive que sair procurando entre meus amigos um gravador K7. Não dava para esperar muito tempo, estava inquieta e curiosa para saber o que continha naquela fita.

Para minha surpresa, era um discurso. Uma fita velha com um discurso de alguém que eu conhecia, mas que era aquele homem? De repente, ele fala do meu avô e de uma banda em Santa Rita. Depois, a banda toca, e dá para perceber que outra banda toca também… Tudo muito confuso e com um som muito ruim, mas deu para entender que era a comemoração de 50 anos de uma das bandas. Fico surpresa quando eu escuto a voz de meu avô. Quanta emoção! Eu não sabia se chorava ou se escutava sua voz novamente. Sua voz ecoava como música nos meus ouvidos. Sei que parece meio melancólico esse assunto, mas esse é um papo familiar, que só os que conviveram com ele entenderão o que senti, pois sei que reagirão iguais a mim quando escutarem aquela doce voz.

Pensa que foi fácil? Imaginem só, uma fita K7 de 30 anos atrás! Fala sério, tive que trocar muitos e-mails com meus familiares para lembrar das pessoas mencionadas, investigar de que banda se tratava, etc. Conversei com alguns primos que eu já não falava havia muito tempo. Passei uma semana transcrevendo os discursos do Aziz Quinani e do meu avô. Valeu a pena! Parte do que eles falaram eu já sabia, outras, nem imaginava, mas vou situar para que você não fique totalmente de fora do assunto.

Apesar de meu avô ser carioca da gema, ele foi transferido para a estação de Santa Rita de Jacutinga (MG) em 1925. Chegando lá, foi muito bem recebido pelo povo e logo se enturmou. Ficou noivo da minha avó, Iracema, e se casaram em 1929.

Compreendi, então, por que era tão importante para os meus avós ver a banda passar. Qualquer banda que passasse era importante para eles, mesmo depois que mudaram para Valença. O importante era sentir novamente a magia da Banda. Afinal de contas, meu avô, Walter Magioli, foi membro fundador, em 1927, juntamente com o senhor Aziz Quinani e outros santarritenses da banda da cidade: a Corporação Musical Cônego Marciano. Sobre seu encargo ficou a tesouraria da banda. Cada vez que a banda passava eles remontavam suas memórias e relembravam a juventude. Adquirindo assim, mesmo que em um lampejo, fôlego para viver bem a velhice.

Assista a essa breve homenagem a meus avós, à Corporação Musical Cônego Marciano e ouça o discurso de meu avô nessa comemoração.

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10 Respostas to “O encantamento da banda musical”

  1. Nancy Says:

    Minhas lágrimas de emoção levam me à vontade de reviver os momentos, passo a passo, de nossas vidas, com a mesma honestidade que meus pais me ensinaram.
    Muito agradecida por esta linda homenagem tão bem merecida ao Magioli, o MELHOR e Maior PAI que já conheci.
    Parabéns, filhota, por este nobre e puro sentimento familiar.
    Que Deus lhe abençõe. Sua mãe e amiga de sempre.

    Nancy.

  2. Lélia Campos Says:

    Olá Elisa

    Sou aluna de licenciatura, e resolvi dar uma passada em seu blog, já que sempre escuto bons comentários a seu respeito dos professores.
    E que grata surpresa foi ler esse seu relato! E uma feliz concidência, meu último post, em meu blog, ser justamente sobre meus avós.
    Parabéns pelo blog e pelos avós!! Voltarei mais vezes, e vou indicá-la em meu blog!

  3. dineia hypolito Says:

    Querida Elisa a cada dia que passa você me surpreende mais e mais! adorei este resgate e o texto sobre a banda musical. Parabéns! Ficou dez. Abraços . professora Dinéia Hypolitto

  4. Uma (H)história real… gravada em uma fita K7 Says:

    […] Leia todo o texto O Encantamento da Banda Musical, no blog Art/Educando: não deixe de ouvir o áudio da tal fita K7 enquanto assiste às fotos de época […]

  5. Alessandro Martins Says:

    Oi, Elisa…

    “Livros é ruim, tá?”

    E que bom que você digitalizou essa fita, porque os meios magnéticos se perdem. E um bem tão precioso quanto a voz de seu avô não pode ser perdido…

    Beijos do Ale.

  6. Lucia Marinho de Mello Says:

    Elisa, muito obrigada!

    Você sabe como sou chorona e como acabei de ver o video, sabe que estou me acabando de chorar.
    Sempre que falo com as pessoas que já não tenho a presença de meus pais e de cinco dos irmãos todos se assustam , e sempre tenho que explicar a linda história de ser a caçula e perder a todos mais cedo; mas como consolo, para mim é claro, sempre completo : tive por pouco tempo, mas tive de verdade.
    Nada melhor que o seu trabalho para provar minha teoria de filha e irmã cheia de saudades.
    Amo muito vocês , só peço uma coisa : não aumentem a lista por favor.

    Um beijo da tia Lúcia (resultado da aposentadoria do seu avô )

  7. Aninha Says:

    Elisa sem palavras, talvez vc tenha achado resposta para uma coisa que me acompanha a muitos anos. Eu sei que Aninha chorar não é novidade para ninguém, tudo que vêm de Valença(Ana, Vô, Vó, Nancy,Elisa,Lúcia Raimundo e Ricardo) é motivo de sobra para aumentar o nivel do Mar de Rio das Ostras.
    Agora eu não posso escultar uma BANDA de música que choro sem parar.
    Quantas vezes que já brigamos por uma espaço naquela janela da frente.
    Aí está a minha resposta.
    Eu amo vocês, todos da Nilo Penhaça, 716.

  8. fatimahelena Says:

    Elisa, que lindo!
    Nossa, que banho de história… Você conseguiu trazer o passado para o presente…conseguiu fazer-nos reviver momentos tão bonitos, tão marcantes.
    Como eles foram importantes para nós. Foram tão influentes que até hoje persistem em nossas memórias, nos nossos atos e ações. Como amaram…como são amados.
    Que família linda!
    Obrigada pelo crédito. Vôcê também é uma historiadora.Lindo e excelente pesquisa. Parabéns.
    Fatima Helena Oliveira de Araújo e Araújo.

  9. Elisa Kerr Says:

    Puxa Raimundo,

    Tinha me esquecido do “parabéns, tique-taque!” .Parece que estou ouvindo eles falarem isso. Nos dois, o Fred e a Monique, nos misturamos muito com eles. É difícil não falar dos velhinhos.

  10. Raimundo de Mello Alves Says:

    Elisa,
    Parabéns, Tique-Taque!!!
    Não dá para descrever a emoção em relembrar tudo isso.
    O que posso dizer é que tenho um grande orgulho de ser membro dessa Família.
    Uma coisa é certa nunca esquecerei esse “Velhinho”, pois é nele que me espelho e tenho como exemplo de homem.
    E mais uma vez fiquei encantado com a Banda.

    Um beijo do seu irmão,

    Raimundo

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