Paleografia: a Arte de Decifrar – parte III

Seminário promovido pelo Arquivo do Estado de São Paulo e realizado em 28 e 29/08/2008.

Este post é um pequeno resumo sobre o assunto tratado durante esse seminário.

“Pela etimologia da palavra, tem-se de imediato o seu significado: paleo = antigo; graphein = escrever. Paleografia é, portanto, escrita antiga, ou seja, estudo da escrita antiga.” (MENDES 2008:17).

A escrita colonial

Roseli Santaella Stella (MINC)

Roseli trabalha com o Projeto Barão do Rio Branco, que se preocupa com o resgate de nossa história que se encontra arquivada na Espanha. Trata-se do período Filipinos (época que Portugal foi dominado pela Espanha). Todos os documentos que Portugal enviava para as colônias e vice-versa passavam pelo conselho de Portugal na Espanha. Esse conselho foi criado para que os reis Felipe I, II e III tivessem controle sobre tudo que estava acontecendo nas colônias portuguesas. Foram criados o Conselho das Índias e o Conselho de Portugal (formado por portugueses indicados por ministros espanhóis). Essa era uma forma de o rei Felipe comandar Portugal sem que os portugueses se dessem conta disso. Dá para imaginar a quantidade de documentos referentes ao Brasil colonial que estão arquivados no castelo em Simancas na Espanha. Essa vila medieval esconde parte de nossa história em um período quase obscuro para nós.

Um pouco da história de Simancas:

1540 – A coroa espanhola já não é mais itinerante; o rei Carlos V fixa seu reino em Valladolid na Espanha.

1543 – Carlos V envia um decreto para que todos os documentos referentes aos territórios que se encontram dentro de seus domínios sejam arquivados em Valladolid.

1560 e 1640 – Domínio espanhol sobre Portugal.

1570 – O Rei Felipe manda construir uma fortaleza para abrigar todos os documentos.

1581 – Criação dos Conselhos de Castela, de Portugal e das Índias.

Na era napoleônica, todos os documentos que se encontravam em Simancas foram enviados para a França e só retornaram para a Espanha em 1940. Retornaram restaurados e acondicionados devidamente.

OBS.: Parte dos documentos foram encadernados no formato de livro, na ordem cronológica dos documentos, o que dificulta o acesso a informação. Atualmente, os arquivistas estão organizando um catálogo para agilizar a pesquisa.

Simancas – Espanha. Uma vila medieval.

Os documentos referentes à fortaleza de Santos e projetado pelo arquiteto real Juan Bautista Antonelli (genovês) estão acondicionados nesse arquivo.

Clique na imagem e conheça mais sobre essa história contada no site – L F viagens e turismo.

Fortalaza de Santos projetada por Antonelli

Vejam alguns mapas dessa e de outras fortalezas colonias no artigo de Beatriz Siqueira Bueno e
Nestor Goulart Reis.

“O Arquivo Histórico do Exercito (AHEX) guarda uma coleção preciosa se desenhos aquarelados, fudamentais para a história das fortificações …” clique aqui.

Prof. João Adolfo Hansem (USP)

O professor Adolfo deixou claro que esse assunto não poderia ser tratado genericamente, mas que assim o faria por falta de tempo para abordá-lo profundamente. Reconheço que é delicado expor assim o assunto, mas vou tentar publicar sem acusar ninguém.

A colonização portuguesa era bem diferente da colonização espanhola (no séc. XVII já havia 30 universidades em suas colônias). No Brasil, a colonização foi predatória, não havendo interesse em alfabetizar ninguém e sim impor a cultura européia e o cristianismo romano às culturas nativas.

A colonização portuguesa (muito católica) se posiciona contra a alfabetização e faz uso desse instrumento para dominar os selvagens (índios).

Também os índios eram considerados sem alma; o nativo era uma página em branco, e a função do jesuíta era escrever nessa alma em branco a cultura européia e as virtudes do cristianismo romano. Não se esqueçam que acabamos de sair da Idade Média!

1540 – A Companhia de Jesus foi criada e eles vieram para o Brasil para catequizar os nativos (índios). Segundo eles, em uma de suas cartas aos superiores, aqui no Brasil não há necessidade de letras e sim de virtudes de Nosso Senhor. Os nativos eram considerados selvagens e agressivos.

Já naquela época, os Jesuítas foram orientados a sistematizar a língua local – o Tupi. Assim, os próximos jesuítas que viriam para essa colônia já saberiam a língua dos nativos. Mas encontraram uma dificuldade na língua tupi. Não havia os fonemas F, L e R. Isso era grave, pois se na língua indígena não existem esses fonemas, como sistematizar um alfabeto em tupi sem poder expressar as palavras FÉ, LEI e REI? E se não existem as letras iniciais dessas palavras, então os índios não seriam capazes de assimilar os conceitos de FÉ, LEI e REI.

O professor explica esse fato comparando os países católicos aos países de fé protestante. No caso dos países protestantes, era fundamental que todos da população fossem alfabetizados para que pudessem ler a Bíblia sozinhos em seus quartos e sem auxílio dos superiores. No entanto, os países católicos não aceitavam que os fiéis lessem a Bíblia, então não permitiam que a população fosse alfabetizada. Novamente a escrita só é usada como forma de dominação e imposição de outra cultura.

Prof. Fernando Medeiros Rodrigues – Agora vamos ver o que um jesuíta pensa da escrita colonial.

O professor fala sobre as curiosidades da escrita diplomática dos jesuítas e sua importância para a Irmandade da Companhia de Jesus (jesuítas), fundada por Inácio de Loyola.

Inácio de Loyola insistia que todos os jesuítas se comunicassem por cartas. Considerava isso importante para a união da irmandade. Eles eram sempre incentivados a escrever, por considerar que essa união manteria os irmãos num só coração. Era uma forma de zelar pela união da Companhia, fortalecer a fé dos jesuítas e aumentar o número de adeptos para a missão.

As correspondências eram usadas como fonte de consolação, fortalecimento, esperança entre os adeptos e uma rede de comunicação que proporcionasse uma visão global dos acontecimentos na missão. Também tinham de fazer diversos relatórios estatísticos: número de convertidos, batismos etc. Eles tinham ainda que fazer uma avaliação de seu próprio trabalho.

Eles podiam escrever duas cartas periodicamente, de acordo com o lugar onde a missão se instalasse, e usavam as rotas de comércio ou correios para enviá-las. Uma delas, oficial, que precisava ser escrita de tal forma que todos pudessem saber do que se tratava (crianças, velho e clérigos), e a outra com uma marca para identificar que era para ser lida apenas pelos membros da irmandade (nessas cartas, eles podiam escrever o que quisessem).

É interessante descobrir que existia um código que somente os jesuítas conheciam. Um exemplo: não era de bom tom falar mal de alguém que não estivesse presente para se defender, nesse caso eles tinham uma codificação que somente podia ser identificada por outro jesuíta, de tal forma que eles decifravam o nome de quem se tratava na carta.

O professor levou alguns exemplos desses códigos e de algumas cartas manuscritas para que pudéssemos entender melhor o valor dessas correspondências para a Irmandade da Companhia de Jesus.

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5 Respostas to “Paleografia: a Arte de Decifrar – parte III”

  1. paulo c saquete Says:

    OI…gostaria de auxilio para decifrar simbolos e letras entalhados em um crusifixo artesanal feito em ouro e bronze medindo mais ou menos 15cm por 22cm encontrado enterrado atraves de pesquisa sobre metais . Espero resposta em meu EMAIL. Obrigado desde já.

    • PAULO CESAR SAQUETE Says:

      Estou na espera de resposta sobre meu questionamento sobre crusifixo artesanal encontrado enterrado com vairos simbolos.

  2. Vilma Diolinda da Costa Says:

    Prezada Professora,

    Gostei muito de encontrar este seu trabalho. Gostaria de conhecer um pouco mais sobre o tema e as pesquisas em curso.
    Parabéns!
    Vilma D da Costa (estudante de História)

  3. Wanderley de Neves Says:

    Cara professora gostaria de ´parabenizá-la pelo belíssimo post que publicou. Adorei . Valeu! prof. de história Wanderley

  4. dineia hypolitto Says:

    Elisa gostei muito desse post, e como você sabe, falou alto e genéticamente o meu lado espanhol. Parabéns mais uma vez por compartilhar o seminário que você participou sobre Paleografia. Abraços Prof. Dinéia hypolitto

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