Educação especializada

Educadora desenvolve pedagogia para regiões violentas

Por Talita Mochiute

Criar um método pedagógico para ajudar crianças e adolescentes que sofreram traumas causados pela convivência diária com a violência e que, por isso, tiveram problemas de aprendizagem, como dislexia, agravados. Este foi o desafio enfrentado pela doutora em filologia e lingüística Yvonne Bezerra de Mello, que desenvolveu o método Uerê-Mello, aplicado no Projeto Uerê, escola de tempo integral sem fins lucrativos da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

“A inteligência permanece intacta. O impacto da violência afeta as funções cognitivas. É preciso então diagnosticar esses traumas psicológicos, desenvolver um atendimento personalizado e definir uma estratégia pedagógica eficaz”, explica Yvonne, coordenadora executiva e pedagógica do Projeto Uerê.

Fundada em 1998, a entidade atualmente oferece educação especializada a 400 crianças e adolescentes entre 4 e 18 anos em suas cinco casas interligadas da Nova Maré – comunidade localizada no Complexo da Maré, maior conjunto de favelas da capital fluminense, no bairro do Bonsucesso.

O embrião do Uerê veio da experiência da educadora com crianças em situação de rua. Após a chacina da Candelária, em 1993, os sobreviventes foram morar debaixo de um viaduto em São Cristóvão, onde surgiu o esboço da primeira escola Uerê, criada por Yvonne, que funcionou por quatro anos, atendendo 120 crianças por dia.

O trabalho educacional com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social estimulou Yvonne estudar as causas dos traumas psicológicos e das dificuldades de aprendizagem. “Estudei a parte neurológica e desenvolvi a metodologia que uso no Projeto Uerê. O método inclui exercícios para desbloquear os traumas e preparar as crianças para aprendizagem”, comenta Yvonne.

Metodologia Uerê-Mello

As crianças ficam na entidade das 8h às 17h30. Lá, aprendem conteúdos escolares e participam de atividades de arte, dança, música e esportes. O custo por estudante é de R$ 100 por mês. “É baixo porque a taxa de manutenção é zero”, revela Yvonne. Os recursos vêm de fundações internacionais, de instituições nacionais do terceiro setor e de doações. O projeto já beneficiou 2.250 crianças e adolescentes.

Todos os dias os educadores do projeto aplicam os 11 momentos, com duração de 10 a 40 minutos, da metodologia Uerê-Mello. “É fundamental a mudança do conteúdo ou da atividade de tempos em tempos para que os alunos mantenham o foco”, conta a coordenadora pedagógica do Uerê.

O objetivo da divisão em momentos em cada turno é estimular a plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade que os neurônios têm de formar novas conexões a cada momento. Com os novos estímulos, a rede de neurônios se recompõe e se reorganiza. Devido a essa característica cerebral, é possível a recuperação gradativa das funções cognitivas, como da memória, da linguagem e do raciocínio lógico-matemático.

“Com a metodologia, consigo 90% de sucesso. Há crianças que chegam aqui e têm dificuldade na fala ou de concentração. Outras têm problemas de memória. Quando as crianças saem daqui, estão tão preparadas quanto as crianças da classe média da zona Sul”, descreve Yvonne.

O primeiro momento do dia, com duração de 10 minutos, é uma revisão oral de algum fato do dia anterior. ”Esse exercício trabalha a memória e ajuda verbalizar os sentimentos e as emoções”, complementa a educadora.

Os conteúdos curriculares de português, matemática, história e ciências são abordados, primeiro, com exercícios orais com ajuda de mapas, vídeos e outros recursos visuais. Só depois dessas atividades os alunos abrem os livros para fazerem a leitura da matéria ou começarem a escrever.

“Nossos livros têm um conteúdo especial. Por exemplo, ao tratar da família, não falamos apenas da família nuclear. Mudamos o conceito. Mostramos os diversos tipos de combinações familiares”, explica Yvonne.

“Nas três horas e meia de cada turno se trabalham todas as matérias e informações, curriculares ou não. Os alunos não permanecem sentados o tempo todo. A sala de aula é interativa e existe espaço para essa movimentação”, conta a coordenadora pedagógica.

Yvonne Bezerra de Mello também adaptou o método de alfabetização fonética para as crianças e adolescentes do Uerê. “Aqui o período de alfabetização dura seis meses. Mudei a ordem da apresentação dos fonemas. As crianças já aprendem que a letra C tem som de K e de S. Também aprendem no mesmo momento o R e RR”.

A educadora teve ainda a preocupação de colocar no material didático apenas palavras formadas com combinações sílabas conhecidas pelas crianças até aquele momento de aprendizagem. Aos poucos, as crianças vão sendo apresentadas às palavras e aos textos mais complexos.

Todos os professores do Uerê são capacitados para poder diagnosticar os problemas da criança e desenvolver a pedagogia da entidade. Esta metodologia já foi aplicada em Angola, na Etiópia, no Quênia, no Sudão e na Tanzânia, países do continente africano. A instituição também é um centro de treinamento para educadores.

A pedagogia Uerê-Mello está em fase de sistematização. Yvonne acabou de entregar para uma editora um livro explicativo sobre o método. Ela também publicará os nove livros didáticos utilizados nas aulas do Uerê.

Fonte: Fundação Educar

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2 Respostas to “Educação especializada”

  1. martha Says:

    Leciono na APAE de Itaporã, e acho q devo procura novos caminho.

  2. Janete Mendes Lang Says:

    Sou professora de duas “classes especiais” de uma escola municipal localizada no bairro de Vaz Lobo, onde os alunos se enquadram perfeitamente na metodologia desenvolvida por vocês. Sabedora da parceria firmada com a nossa prefeitura; procurei inteirar-me do projeto Uerê. Que ajuda podemos esperar de concreto?
    Em tempo – Formada pelo Instituto de Educação (1971) e pela UFRJ (Serviço Social), Tel: 96047347

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