Sabores do vovô

Lembranças possuem sabor! Sabor gostoso que enche minha boca e chego até a salivar, imaginando como seria prová-las novamente. Meu avô era assim, tinha sabor de tutti-fruti e as vezes bala puxa-puxa. Sempre a chupar uma balinha e quando pedia uma a resposta era a mesma: “- esta era a última! Toma o dinheiro, vá comprar uma para você”. Em seu bolso havia sempre balas.

Walter Magioli de Mello - caricatura - autor:Ique

 

Quando eu ficava e parada na escada, pensando em meu pai, lá vinha ele sentar-se ao meu lado. Este momento, tão mágico, tinha sabor de afeto. Colocava-me em seu colo a cantarolar músicas que me faziam sorrir, expressando seu amor. Correr, pular e rolar no chão não fazia parte de seu repertório, mas com um simples olhar transmitia o seu pensar. Calado e observador era capaz de pressentir quando me vinha a dor, e desde pequena convivi com esse doce olhar.

 

Ao pegar-me fazendo algo errado, sua voz entoava: “- onde está a mãe desta criança que não está vendo isto?” Murmurar sim, esbravejar, jamais! E logo em seguida declamava um poema, o qual não me atrevo a escrever, e ao perceber os passos de minha mãe, rapidamente mandava-me comprar algo. Protegia-me até ao murmurar, com um sorriso do lado, bem maroto, próprio dos avôs.

 

À noite, antes de dormir, tomava seu banho e percorria a sala com os cabelos prateados e molhados, arrastando seus chinelos e com aquele pijama salmão. Esse pijama o imortalizou com o apelido de “a pantera cor de rosa”. Jamais o chamávamos assim; acho que no fundo ele sabia que tinha este apelido, e como todo avô fingia que nada acontecia.

 

Alguns finais de semana, quando a família se reunia, íamos pescar na usina Santa Rosa, uma represa magnífica. Uma pequena represa – não iluminava nem um pequeno bairro da cidade – sua magnitude não estava em seu tamanho, ou na energia que gerava e sim nas lembranças em mim deixadas. Pois ainda vejo meu avô lá embaixo procurando um lugar para acomodar-se e com sua varinha e num profundo silêncio ficava a pescar. Ai de quem os pés naquela água molhasse, rapidamente ouvia o velho a murmurar bem baixinho: “-psiu! Vai espantar os peixes!”

 

Ah, doce sabor que senti e não sentirei mais, pois esse era sem par, não há outro igual.Vaidoso, alto, bonito e cheiroso, com sua calça de linho e um chapéu na mão lá ia meu avô, parecia um puro-sangue de tão imponente, resolver seus assuntos na rua. Ao voltar, guardava o chapéu e algo ia fazer.

 

Havia um degrau da casa, e ele só sentava ali quando ia preparar o material para empalhar cadeiras. Nada ganhava com isso; empalhava para os amigos só para passar o tempo. Quando lá estava, com um canivete nas mãos e pequenos pedaços de madeira, logo perguntava: “- vô o senhor vai fazer palhinha?” Prontamente respondia: “- vou sim Lili”. Como já disse, era calado e observador, não falava muito. É por isso que as lembranças que tenho dele são saborosas, não eram palavras que iam com o vento, mas expressões de puro amor; e essas marcaram minha vida. Muitas e muitas vezes passávamos o tempo juntinhos, sem falar muito para não atrapalhá-lo, só ajudando no que me pedia. Acho que sou capaz de empalhar uma cadeira só de lembrar os movimentos das mãos de meu avô trançando a palha e manuseando as estacas. Pude desfrutar de tempo ao seu lado e sentir esse olhar que me abraçava com um leve sorriso do lado, bem maroto, próprio dos avôs.

 

Meu avô Walter

 

Delícias da vida, tão vivas e saborosas, doces e afetuosas que pude saboreá-las em uma única pessoa; devotou-me tanto amor que refrescou a minha imensa dor. Sinto saudades desses sabores, daquelas mãos enrugadas trabalhando por puro prazer, do murmuro fajuto, do silêncio.

 

Pena que os avôs duram pouco, mal crescemos e já os perdemos seja para a morte, ou para as conseqüências da velhice, nós os perdemos e ficam apenas as lembranças, as doces e saborosas lembranças que a vida nos permite guardar. Proporcionando-nos alegrias que de quando em quanto brotam fazendo-nos ver o quanto é bom viver.

Elisa de Mello Kerr Azevedo – 2004.

 

 

 

18 Respostas to “Sabores do vovô”

  1. Rodrigo Says:

    Isso é amor em uma das suas formas mais plenas, sempre bom ler suas palavras minha prima! Beijo grande! Rodrigo

  2. Lusia Arruda Says:

    Amei essa ideia de postar essas lindas recodações.

  3. Denise Silva de Mello Says:

    Elisa,
    emocionante seu relato.
    Me fez lembrar de meus avós já distantes e que não posso mais abraçar ou mesmo sentar em seus colos.
    Como o amor de neto é tão doce….tanto como as balinhas…não tem peso. Amor leve. Agora, tenho 44 anos, 3 filhos e fico pensando: será que terei os meus netos para amar desprendida, largamente e desinteressadamente assim? Será que terão tempo para me enxergar e me amarão tão delicadamente? Será que me tornarei para eles uma doce lembrança também?
    Parabéns pelo texto que me fez chorar pelos meus. Beijo.

  4. lia noronha Says:

    Na minha página tem uma homenagem a minha vozinha Ottília..qtas saudades…meu Deus!!!

  5. lia noronha Says:

    Os meus eu curti por muito tempo..se foram ha pouco mais de 2 anos…e poderiam ser eternos…mas em nossos corações sempre serão!!!

  6. Rosemar De Fátima Gonçalves Leal Says:

    Que relato emocionante! Me trouxe lagrimas no olhos ao lembrar de meus avós, que como o seu, já se foram. Mas ficam as boas lembranças e, sobretudo, os ensinamentos que contribuiram para nossa boa formação. Obrigada por tão gratificante leitura. Deus te abençoe e te guarde, resplandeça o Seu rosto sobre ti e te dê a paz.

  7. Celina Says:

    Elisa…desculpe achei seu depoimento por acaso… este sentimento pelo seu avô…me fez lembrar dos meus avós e tb do carinha que minha mãe tinha pelos meus filhos, que a teem assim como vc…pertinho do coração mesmo estando com o Papai do Céu…
    Desculpe mas vc me fez chorar… de saudades…
    Beijos Linda.

    Celina

  8. Frederico Mello Says:

    Tambem ainda me lembro do “Velho Magioli” cheirando meus braços para saber se eu havia tomado banho. Na verdade havia apenas lavado os braços. Ele sabia, mas o que importava isto.Importava apenas a minha felicidade.
    Saudades meu avo.

  9. Tio Célio Says:

    Lili_Elisa.
    Fui virando um poça d’água a medida que lia…
    Vera e Rodrigo (estavam em casa) me acuiram para sair da forma líquida…
    Por coincidência estou fazendo um pequeno trabalho onde tentava esboçar uma cadeira de balanço e a imagem do “seu Vô” estava o tempo todo comigo.Quando passei pela foto dele na cadeira de balanço faltou ar…
    Como você foi feliz!
    Deus a abençoe.

  10. Sergio Says:

    Tú sempre foi danadinha, mas agora se superou.
    Ao sentir os sabores do vô, deu-me uma enorme vontade de fazer um vídeo. Seu relato além de saboroso desmente a máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”.
    É só ler seu texto que vejo o filme do vô andando … cabelos prateados e molhados, arrastando seus chinelos e com aquele pijama salmão …
    Fico com medo dele vir puxar me pé. Ficou uma fera, sempre sob controle e sem elevar a voz, quando deixei seu canivete cair no mar em Coroa Grande.
    Voce reviveu lembranças valiosíssimas.
    Parabens minha querida danadinha!

  11. Elisa Kerr Says:

    Tia Lili,
    Lembro-me bem do vô fazendo suspiros, todos os dias, para a Monique. Lembro do cachorro que o tio trouxe da Bahia para guardar a casa e que o ladrão robou. O ladrão tinha bom gosto, aquele cachorro era lindo! Muitas coisas importantes não escrevi, mas estão bem guardadas comigo. Todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com ele temos lembranças maravilhosas para compartilharmos.

    Um abraço,
    Elisa Mello Kerr

  12. lili mello Says:

    Elisa,
    Fiquei muito feliz em saber que você também guarda estas lindas recordações do nosso mui querido vovô Walter. Eu também o amava muito e guardo no fundo do meu coração as mais belas lembranças e sou muito grata por todo o bem que ele nos fez. Esta semana ainda comentei com a Cida (minha nora), que eu o amava demais e tenho presente no meu coração o carinho que ele nos dedicava. Tem um fato que faço questão de contar: quando as crianças eram pequenas e morávamos em Valença, eles tiveram hepatite – na época a coisa estava muito difícil para nos e ele ia, todos os dias, levar suspiro e goiabada, mas no fundo da bolsa tinha sempre us bifinhos ou um frango e ele dizia: passei na Merval e trouxe isto para vocês. Existe alguma maneira mais sutil de ajudar? Jamais nos o esqueceremos. Parabéns, Elisa, por você ter tido esta feliz idéia. Obrigada em nome de toda a minha família.
    Lili

  13. Lúcia Mello Says:

    Parabéns Elisa, que lindo.
    Revi tio Walter.
    Só quem o conheceu pode perceber as delícias de um ser humano dadivoso.
    Você conseguiu, através de suas palavras,trazer novamente tio Walter a nossos corações.
    Lindo…lindo…lindo.

    Fátima H. Araújo

  14. José Carlos Says:

    Elisa
    Só me vem a cabeça isso:
    MUITO OBRIGADO MEU AMOR.
    Estou chorando.

  15. Lúcia Mello Says:

    Pude sentir o sabor doce das coisas que descreveu, de tudo isto tambem vivi.
    Ah! Que Saudade !
    Felizes somos nos que temos este sabor no coracao.
    Um beijo e parabens Elisa.
    Monique

  16. Raimundo de Mello Alves Says:

    É Lili, você arrebentou e que saudades do Vô.
    Como nós eramos felizes e não sabiamos!
    Beijos, seu Irmão.

  17. Lúcia Mello Says:

    Nossa que emoção, achei essa preciosidade por acaso.Você me emocionou muito sua danada. Bjs, tia Lúcia

  18. Elisa Kerr Says:

    1. prof.Dinéia Hhypolitto Disse:
    Maio 8th, 2007 at 7:31 am e

    Elisa que emoção ao ler este post. Você me fez relembrar a miha querida avó, pois eu não tive a mesma sorte que você, que pode vivenciar os sabores afetivos ao lado do vovô. Eu não conheci os meus avôs,porém a minha avò foi tudo de bom na minha vida e conseguiu suprir os avôsEla foi uma mulher forte, dinâmica, batalhadora e muito amorosa. Que sabor de saudades … Grata . Abraços Prof. Dinéia

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