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O livro: entre o leitura e a preservação

31 agosto, 2009

Sexta passada, dia 28/08/09, estive na FAENAC – Anhanguera Educacional –  em São Caetano do Sul, para proferir uma palestra aos alunos de Letras e História.  Deixo aqui, conforme prometi aos alunos, um breve relato e a bibliografia para pesquisa.

A universalização do saber – um histórico das bibliotecas, a quem era permitido o acesso, como o conhecimento era desenvolvido dentro delas e o formato do livro:

  • Bibliotecas de Alexandria e Pérgamo
  • Codex – formato do precursor do livro atual;

Palavras do Abade  aos monges beneditinos copistas: “Escrevei! Uma letra traçada neste mundo vos resgatará de um pecado no céu.” (MARTINS, 2001:99).

Monge em seu exercício diário de regeneração. Jean Miélot (d. 1472) - Europa medieval, os monges reproduziam livros copiando diligentemente os textos. Este trabalho se realizava em uma sala do mosteiro denominada scriptorium, idealizada para este propósito para este propósito.

Monge em seu exercício diário de regeneração. Jean Miélot (d. 1472) - Europa medieval, os monges reproduziam livros copiando diligentemente os textos. Este trabalho se realizava em uma sala do mosteiro denominada scriptorium, idealizada para este propósito para este propósito.

  • Gutenberg (tipos móveis);
  • Incunábulos  – Livros impressos com tipos móveis entre 1455 a 1500;
  • Libellus – livros portáteis dedicados a leitura prazerosas: romances, livro de preces, etc;
  • Liberdade – Quem determina o que vamos ler?;
  • Livro eletrônico – Será que o conhecimento será universalizado?

O livro e sua história – o livro como registro da evolução histórica do homem: o conteúdo do livro,  a arte dos livreiros e a tradição dos encadernadores e colecionadores, que estão registrados em sua confecção.

Capa de De Vita Leonis Decimi Pont(*), de P. Jovius (1549), encadernado por Claude de Picques para Jean Grolier.

Evangelho de S. João (séc. VII).   A ornamentação, com linhas pintadas em azul e amarelo sobre couro vermelho, traz os entrelaços característicos do estilo celta

Capa em mosaico – técnica que utiliza recortes de couro de cores variadas, embutidos ou superpostos – realizada por Augustin du Seuil para a edição de Daphnis et Chloé pertencente ao Regente (1718).

Conservação de livros – critérios éticos dessa profissão e alguns procedimentos utilizados em livros.

Reparos em lombadas – as fragilidades da lombada do livro e um exemplo de conservação.

Acondicionamento inadequado – de livros; documentos enrolados; documentos dobrados; douração manual.

Educação patrimonial – a importância de começarmos esse trabalho na infância.

Sugestão de sites para pesquisa

http://bichopapel.blogspot.com

http://www.ateliermachado.com.br

http://www.comphap.uns.arq.br

http://www.escritoriodolivro.com.br

http://www.moleiro.com

http://www.museu.gulbenkian.pt

http://www.ump.edu.br

http://www.unostiposduros.com

http://pt.wikipedia.org/wiki

Esse blog – art|educando – também possui várias publicações sobre livros, encadernações e dicas de como conservar seus livros.

Bibliografia

ARANTES, Antônio Augusto. Estratégias de construção de patrimônio cultural/ Produzindo o Passado. São Paulo: brasiliense. 1984.

ASSUNÇÃO, Paulo de. Patrimônio. São Paulo: Loyola, 2003.

BECK, Ingrid. Conservação e restauro de documentos em suporte papel. In: GRANATO, Marcus (Org). Conservação de acervos / Museu de Astronomia e Ciências Afins. Rio de Janeiro: MAST, 2007, p. 54-60.

BRUNET, Rosa. MANADÉ, Maria. Como organizar una biblioteca. España: CEAC, 1986.

CANFORA, Luciano. A biblioteca desaparecida: histórias da biblioteca de Alexandria. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora UNESP/ Imprensa Oficial do Estado, 1999.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Lisboa: Edições 70, 2000.

GRANATO, Marcus (Org). Conservação de acervos/ Museu de Astronomia e Ciências Afins. Rio de Janeiro: MAST, 2007.

CRUZ, Anamaria da Costa; MENDES, Maria Tereza Reis. A Biblioteca: para o técnico e suas tarefas. Niterói: Intertexto, 2000.

Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo. O direito a memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo:DHP. 1992

EL FAR, Alessandra. O livro e a leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1970.

FEBVRE, Lucien; Martin, Henry-Jean. O aparecimento do livro. Trad. Fúlvia M. L. Moretto, Guacira Marcondes machado. São Paulo: UNESP, 1992.

FLOWER, Derek Adie. Biblioteca da Alexandria – As histórias da maior biblioteca da antiguidade / Tradução de Otacílio Nunes e Valter Ponte. São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

FONSECA, Edson Nery da. Introdução a biblioteconomia. São Paulo: Pioneira, 1992.

GUTHS, Saulo e CARVALHO, Claudia S. R. Conservação preventiva: ambientes próprios para coleções. In: GRANATO, Marcus (Org). Conservação de acervos/ Museu de Astronomia e Ciências Afins. Rio de Janeiro: MAST, 2007, p. 25-44.

HOURANI, Albert Habid. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2001

JEAN, Georges. A escrita – memória dos homens. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras. 1997.

MARTINS, Wilson. A palavra escrita– história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo: Ática, 2001.

MORAES, Rubens Borba de. Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial. 2 ed. Brasília: Briquet de Lemos/ Livros, 2006

SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

VALENTE, Maria Esther. A conquista do caráter público do museu. In: GOUVEA, Guaracira; MARANDINO, Martha; LEAL, Maria Cristina (Orgs.). Educação e museu: a construção social do caráter do educativo dos museus de Ciências. Rio de Janeiro: Access, 2003.

Paleografia: a Arte de Decifrar – parte III

31 agosto, 2008

Seminário promovido pelo Arquivo do Estado de São Paulo e realizado em 28 e 29/08/2008.

Este post é um pequeno resumo sobre o assunto tratado durante esse seminário.

“Pela etimologia da palavra, tem-se de imediato o seu significado: paleo = antigo; graphein = escrever. Paleografia é, portanto, escrita antiga, ou seja, estudo da escrita antiga.” (MENDES 2008:17).

A escrita colonial

Roseli Santaella Stella (MINC)

Roseli trabalha com o Projeto Barão do Rio Branco, que se preocupa com o resgate de nossa história que se encontra arquivada na Espanha. Trata-se do período Filipinos (época que Portugal foi dominado pela Espanha). Todos os documentos que Portugal enviava para as colônias e vice-versa passavam pelo conselho de Portugal na Espanha. Esse conselho foi criado para que os reis Felipe I, II e III tivessem controle sobre tudo que estava acontecendo nas colônias portuguesas. Foram criados o Conselho das Índias e o Conselho de Portugal (formado por portugueses indicados por ministros espanhóis). Essa era uma forma de o rei Felipe comandar Portugal sem que os portugueses se dessem conta disso. Dá para imaginar a quantidade de documentos referentes ao Brasil colonial que estão arquivados no castelo em Simancas na Espanha. Essa vila medieval esconde parte de nossa história em um período quase obscuro para nós.

Um pouco da história de Simancas:

1540 – A coroa espanhola já não é mais itinerante; o rei Carlos V fixa seu reino em Valladolid na Espanha.

1543 – Carlos V envia um decreto para que todos os documentos referentes aos territórios que se encontram dentro de seus domínios sejam arquivados em Valladolid.

1560 e 1640 – Domínio espanhol sobre Portugal.

1570 – O Rei Felipe manda construir uma fortaleza para abrigar todos os documentos.

1581 – Criação dos Conselhos de Castela, de Portugal e das Índias.

Na era napoleônica, todos os documentos que se encontravam em Simancas foram enviados para a França e só retornaram para a Espanha em 1940. Retornaram restaurados e acondicionados devidamente.

OBS.: Parte dos documentos foram encadernados no formato de livro, na ordem cronológica dos documentos, o que dificulta o acesso a informação. Atualmente, os arquivistas estão organizando um catálogo para agilizar a pesquisa.

Simancas – Espanha. Uma vila medieval.

Os documentos referentes à fortaleza de Santos e projetado pelo arquiteto real Juan Bautista Antonelli (genovês) estão acondicionados nesse arquivo.

Clique na imagem e conheça mais sobre essa história contada no site – L F viagens e turismo.

Fortalaza de Santos projetada por Antonelli

Vejam alguns mapas dessa e de outras fortalezas colonias no artigo de Beatriz Siqueira Bueno e
Nestor Goulart Reis.

“O Arquivo Histórico do Exercito (AHEX) guarda uma coleção preciosa se desenhos aquarelados, fudamentais para a história das fortificações …” clique aqui.

Prof. João Adolfo Hansem (USP)

O professor Adolfo deixou claro que esse assunto não poderia ser tratado genericamente, mas que assim o faria por falta de tempo para abordá-lo profundamente. Reconheço que é delicado expor assim o assunto, mas vou tentar publicar sem acusar ninguém.

A colonização portuguesa era bem diferente da colonização espanhola (no séc. XVII já havia 30 universidades em suas colônias). No Brasil, a colonização foi predatória, não havendo interesse em alfabetizar ninguém e sim impor a cultura européia e o cristianismo romano às culturas nativas.

A colonização portuguesa (muito católica) se posiciona contra a alfabetização e faz uso desse instrumento para dominar os selvagens (índios).

Também os índios eram considerados sem alma; o nativo era uma página em branco, e a função do jesuíta era escrever nessa alma em branco a cultura européia e as virtudes do cristianismo romano. Não se esqueçam que acabamos de sair da Idade Média!

1540 – A Companhia de Jesus foi criada e eles vieram para o Brasil para catequizar os nativos (índios). Segundo eles, em uma de suas cartas aos superiores, aqui no Brasil não há necessidade de letras e sim de virtudes de Nosso Senhor. Os nativos eram considerados selvagens e agressivos.

Já naquela época, os Jesuítas foram orientados a sistematizar a língua local – o Tupi. Assim, os próximos jesuítas que viriam para essa colônia já saberiam a língua dos nativos. Mas encontraram uma dificuldade na língua tupi. Não havia os fonemas F, L e R. Isso era grave, pois se na língua indígena não existem esses fonemas, como sistematizar um alfabeto em tupi sem poder expressar as palavras FÉ, LEI e REI? E se não existem as letras iniciais dessas palavras, então os índios não seriam capazes de assimilar os conceitos de FÉ, LEI e REI.

O professor explica esse fato comparando os países católicos aos países de fé protestante. No caso dos países protestantes, era fundamental que todos da população fossem alfabetizados para que pudessem ler a Bíblia sozinhos em seus quartos e sem auxílio dos superiores. No entanto, os países católicos não aceitavam que os fiéis lessem a Bíblia, então não permitiam que a população fosse alfabetizada. Novamente a escrita só é usada como forma de dominação e imposição de outra cultura.

Prof. Fernando Medeiros Rodrigues – Agora vamos ver o que um jesuíta pensa da escrita colonial.

O professor fala sobre as curiosidades da escrita diplomática dos jesuítas e sua importância para a Irmandade da Companhia de Jesus (jesuítas), fundada por Inácio de Loyola.

Inácio de Loyola insistia que todos os jesuítas se comunicassem por cartas. Considerava isso importante para a união da irmandade. Eles eram sempre incentivados a escrever, por considerar que essa união manteria os irmãos num só coração. Era uma forma de zelar pela união da Companhia, fortalecer a fé dos jesuítas e aumentar o número de adeptos para a missão.

As correspondências eram usadas como fonte de consolação, fortalecimento, esperança entre os adeptos e uma rede de comunicação que proporcionasse uma visão global dos acontecimentos na missão. Também tinham de fazer diversos relatórios estatísticos: número de convertidos, batismos etc. Eles tinham ainda que fazer uma avaliação de seu próprio trabalho.

Eles podiam escrever duas cartas periodicamente, de acordo com o lugar onde a missão se instalasse, e usavam as rotas de comércio ou correios para enviá-las. Uma delas, oficial, que precisava ser escrita de tal forma que todos pudessem saber do que se tratava (crianças, velho e clérigos), e a outra com uma marca para identificar que era para ser lida apenas pelos membros da irmandade (nessas cartas, eles podiam escrever o que quisessem).

É interessante descobrir que existia um código que somente os jesuítas conheciam. Um exemplo: não era de bom tom falar mal de alguém que não estivesse presente para se defender, nesse caso eles tinham uma codificação que somente podia ser identificada por outro jesuíta, de tal forma que eles decifravam o nome de quem se tratava na carta.

O professor levou alguns exemplos desses códigos e de algumas cartas manuscritas para que pudéssemos entender melhor o valor dessas correspondências para a Irmandade da Companhia de Jesus.

Paleografia: A Arte de Decifar – parte I

31 agosto, 2008

Seminário promovido pelo Arquivo do Estado de São Paulo e realizado em 28 e 29/08/2008.

Este post é um pequeno resumo sobre o assunto tratado durante esse seminário.

“Pela etimologia da palavra, tem-se de imediato o seu significado: paleo = antigo; graphein = escrever. Paleografia é, portanto, escrita antiga, ou seja, estudo da escrita antiga.” (MENDES 2008:17).

Usos e competências da paleografia para a história, a filologia e a arquivística.

Prof. Ataliba Castilho (USP)

Ficou encarregado de falar sobre a filologia e infelizmente não pode comparecer, mas deixou tudo preparado para que pudéssemos desfrutar de sua vivência com o projeto caipira.

A filologia começou no séc. III a.C. em Alexandria e quer disser: amor à palavra.

Prof. João Euclides Franklin Leal, Núcleo de Paleografia e Diplomacia da UNIRIO

Se responsabilizou pela arquivística.

– O Rio de Janeiro é responsável para salvaguarda da maior parte dos documentos da América Latina.
– A paleografia, para o arquivista, é fonte de organização e só tem sentido se gerar uma produção, se for lida, transcrita e divulgada.
– A diplomacia é a verificação da veracidade do documento. Por isso, ela é a alma desse documento.
– Em 1990, São Paulo sediou o primeiro encontro para criação de uma norma para a leitura dos documentos coloniais do Brasil e América Latina.
– A tipologia dos documentos coloniais é muito diferente da tipologia medieval. Por isso, foi necessário criar novas normas, pois as normas medievais não se ajustavam à realidade dos documentos brasileiros.
– A paleografia só tem sentido se gerar produção e para que isso aconteça é necessário recontar a história do Brasil com base nesses documentos.
– Nossa história é unilateral e composta por “achismos”. E isso não pode continuar desse jeito. Temos que gerar novas produções autênticas.
– Um documento não pode ter valor apenas pela curiosidade e sim pela informação que contém.
– O conhecimento não pode ser egoístico; ele deve ser socializado.